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ENTREVISTA O Dr.José Rosemberg, professor de
Pneumologia e um dos fundadores da Faculdade de
Medicina da PUC (SP), tem-se destacado no combate à
tuberculose e ao tabagismo. Seu livro “Tabagismo,
sério problema de saúde pública” foi premiado pela
Academia Nacional de Medicina, em 1980.
O
cigarro industrializado se disseminou feito praga
pela Europa e pelas Américas, especialmente a partir
da Primeira Guerra Mundial. A publicidade
associava-o a um hábito elegante e sofisticado de
viver e, dependendo do contexto, a uma forma de
inserção social. Em “Casablanca”, clássico do cinema
romântico americano, rodado em 1943, em plena
Segunda Grande Guerra, são inesquecíveis as cenas em
que o carismático e talentoso Humphrey Bogart dá
longas tragadas ao som de “As time goes by”.
Entretanto, nos anos de 1950, alguns trabalhos
começaram a demonstrar que o cigarro era capaz de
provocar câncer em animais, constatação que as
companhias tabaqueiras lutaram por desqualificar.
Investindo maciçamente em tal propósito, durante
muitos e muitos anos, atingiram seu objetivo. No
início da década de 1970, porém, vozes se levantaram
contra tamanho absurdo e chamaram atenção para os
males que o cigarro provoca. No Brasil, o professor
José Rosemberg foi o primeiro a veicular esse
conhecimento e a engajar os médicos na luta contra o
tabagismo.
Cruzada
anti-tabagista
Drauzio – O senhor começou essa cruzada
antitabagista nos anos 1970. O que o levou a
perceber que o cigarro era um problema gravíssimo de
saúde pública?
José Rosemberg – Como médico, sabia que o cigarro
era mortal, mas não dedicava tanto tempo a divulgar
essa informação, porque minha especialidade é a
tuberculose. Todavia, em 1970, um amigo dinamarquês
que era presidente e diretor da Organização Mundial
de Saúde, me pediu para divulgar na classe médica a
importância do combate ao tabagismo, porque a OMS
pretendia lançar o primeiro Dia Mundial de Combate
ao Tabagismo (31 de maio). Atendendo ao seu pedido,
consegui aprovar a primeira Semana Universitária
Antitabágica na PUC/SP, que se transformou num
grande fórum de discussão a respeito desse tema.
Nessa ocasião, escrevi um artigo de mais ou menos
vinte páginas sobre tabagismo e coloquei numa
gaveta. Quando o reli, vi que ele não convenceria
nem mesmo os médicos interessados no assunto.
Redigi, então, uma monografia que foi publicada no
primeiro número especial da revista da PUC/SP. A
essa publicação seguiu-se “Tabagismo: Sério Problema
de Saúde Pública”, laureado pela Academia Nacional
de Medicina, o primeiro livro científico brasileiro
sobre o tabaco como grave problema de saúde pública.
Daí em diante, tenho me dedicado a campanhas de
esclarecimento junto à classe médica a respeito do
tabagismo.
Atualmente, sou presidente da Comissão de Tabagismo
da Associação Médica Brasileira, que tem alcance
muito grande, e membro da Comissão Antitabagismo
criada pelo Conselho Federal de Medicina. Sou também
presidente honorário da Comissão Latino-Americana
Antitábágica e presidente do Comitê Coordenador do
Tabagismo no Brasil. Esses cargos facilitam meu
contato com os médicos e, de vez em quando, com o
público leigo como está acontecendo nesta
entrevista, que considero muito importante para
informar a população sobre os prejuízos que o
cigarro provoca.
Indústria
do fumo
Drauzio – Nos anos 1970, quando o senhor começou
esse trabalho, como os médicos recebiam a informação
de que o cigarro era mortal?
José Rosemberg – A maioria com muito interesse.
Havia os médicos fumantes que, evidentemente, se
interessavam menos. Em 1985, conseguimos formar a
primeira comissão junto ao Ministério da Saúde
(éramos oito ou dez médicos, mas gostaria de nomear
os professores Mário Rigatto, Edmundo Blundi).
Tínhamos o trabalho clandestino de elaborar um
programa antitabaco. O ministro da saúde da época,
Valdir Arcoverde nos disse – “Quero que vocês
apresentem um programa de combate ao fumo, mas, pelo
amor de Deus, não digam nada a ninguém, porque a
sabotagem contra ele vai ser grande e não tenho
meios para combatê-la” Desse modo, durante um ano,
nos reunimos em sigilo, uma vez por mês, em
Brasília, elaboramos o primeiro Programa Nacional de
Combate ao Tabagismo e José Sarney, presidente da
república na época, sancionou o projeto que
instituía o dia 29 de agosto como Dia Nacional de
Combate ao Tabagismo.
Drauzio – A pressão violenta que levava o ministro
da saúde a pedir que o trabalho fosse feito em
sigilo era basicamente exercida pela indústria do
fumo que na época controlava os meios de
comunicação?
José Rosemberg – A indústria tabaqueira
internacional - todas elas são multinacionais -
controlam os meios de comunicação do mundo. Para ter
uma idéia, o programa do congresso norte-americano
contra as companhias tabaqueiras fez vir à tona mais
de 40 milhões de páginas de atas secretas nas quais,
desde 1945, estavam registrados pronunciamentos de
técnicos e biólogos a respeito da dependência da
nicotina como mais forte do que a da cocaína e
heroína. Portanto, muito antes da ciência oficial, a
indústria do tabaco já dominava esse conhecimento.
No
entanto, ela continuou trabalhando para conseguir
geneticamente plantas de tabaco que produzissem
maiores teores de nicotina e obtiveram a espécie Y1.
As primeiras duzentas toneladas foram plantadas no
Rio Grande do Sul e o próprio plantador percebeu a
força que tinha essa planta, chamada de tabaco louco
ou fumo louco, pelas lesões que provocava na pele.
Felizmente, o governo brasileiro se recusou a
conceder patente para tal produto e o mesmo fez o
governo norte-americano. No entanto, neste momento,
21 países do mundo fabricam cigarros com fumo louco,
que têm teor de nicotina três vezes maior do que o
tabaco comum. E o pior, trata-se de nicotina livre,
que vai diretamente para o cérebro e é diferente da
nicotina presa por sais minerais. Como se vê, o
mundo está sendo invadido pelo fumoY1, uma droga
psicoativa muito mais difundida e consumida do que a
cocaína, a heroína e outras drogas pesadas.
Pandemia do
tabaco
Drauzio – Em seu livro ” Nicotina - Droga
Universal”, o senhor se refere à epidemia do tabaco
como um problema mundial?
José Rosemberg – Mostro nesse livro que se trata de
uma pandemia sem igual. De fato, podemos dizer que a
epidemia moderna do tabaco é pior do que qualquer
outra. Vou dar um exemplo: nos últimos 30 anos, o
HIV matou em média vinte milhões de pessoas no mundo
e o bacilo da tuberculose, 60 milhões, enquanto o
tabaco matou 150 milhões, ou seja, cinco milhões de
pessoas no mundo morrem por ano por causa do tabaco.
O mais triste é que 80% da mortalidade ocorrem no
mundo pobre.
Em
números redondos, atualmente existem no mundo um
bilhão e trezentos milhões de fumantes, 80% dos
quais concentrados nas áreas onde ainda não foram
dominadas as doenças transmissíveis por bactérias e
vírus e as doenças carenciais por desnutrição.
Somem-se a elas os problemas de saúde pública e as
mais de 50 doenças relacionadas com o tabaco e
teremos traçado um panorama trágico.
Componentes
do tabaco
Drauzio – Na verdade, são muitas as substâncias
tóxicas contidas no tabaco.
José Rosemberg – Sabe-se, hoje, que o tabaco possui
mais de sete mil substâncias tóxicas diferentes. O
público leigo e muitos médicos pensam que o fumo
contém apenas nicotina e alcatrão. Nicotina é a
droga que leva à dependência (se não fosse ela,
ninguém fumava) e tem a peculiaridade de não ser
comprada pura como a cocaína e a heroína. Ninguém
compra um grama de nicotina no bar; compra um maço
de cigarros, que carreiam consigo sete mil
substâncias tóxicas, 4720 das quais classificadas
quimicamente nas quatorze famílias químicas. Quando
o cara dá aquela tragada que lhe parece tão gostosa,
a fumaça que penetra até no último de seus alvéolos
está carregando pelo menos 2.500 substâncias
tóxicas. Muitas dessas substâncias não estão no
tabaco. São compostas e decompostas na boca do
fumante.
Drauzio – Essa fumaça está em que temperatura,
professor? José Rosemberg – Essa é uma pergunta
importante. A fumaça do cigarro pode atingir
temperaturas muito altas conforme a força da tragada
e é responsável pela formação de muitas substâncias
cancerígenas. A nicotina em si não é cancerígena,
mas provoca câncer por vários mecanismos.
Drauzio – O senhor poderia mencionar as principais
doenças causadas pelo tabaco?
José Rosemberg - Hoje, não há um livro de medicina
que deixe de mencionar os problemas de saúde
causados pelo tabaco. Em primeiro lugar, vêm as
doenças cardiorrespiratórias. Se, no geral, 33% dos
infartos fulminantes são provocados pelo tabaco, nos
indivíduos entre 45 e 55 anos, esse número sobe para
50%.
A
partir dos 50 anos de idade, 25% dos derrames
cerebrais têm como causa o tabaco e não há quem não
saiba que o derrame cerebral pode levar à morte ou à
paralisia. Além disso, 85% dos casos de bronquite
crônica, enfisema, uma enfermidade que destrói o
pulmão e não tem cura, se devem ao hábito de fumar.
E não é só: essas doenças deixam o pulmão mais
vulnerável às infecções viróticas e bacterianas,
como gripe, AIDS, tuberculose, etc.
Por causa da diminuição da capacidade imunológica
dos macrófagos (células que garantem a imunidade)
que o tabaco provoca, 90% dos cânceres de pulmão são
causados pelo tabaco e os 10% de não-fumantes que
contraem a doença são fumantes passivos. E tem mais:
todos os outros tipos de câncer têm a incidência
aumentada entre 30% e 50% nos fumantes. Portanto,
casos de câncer de boca, laringe, faringe, esôfago,
estômago, pâncreas, fígado, rins, bexiga, leucemia
mielóide e, nas mulheres, câncer de colo do útero e
de mama, estão aumentando nas pessoas que fumam.
Ninguém mais discute que o tabaco é mortal. Na
verdade, ele é o único produto que mata quando
consumido como manda a propaganda.
Pesquisa na
Inglaterra
Drauzio – Não resta mais dúvida de que o fumante
vive menos.
José Rosemberg – Que o cigarro encurta a vida, não
há mais dúvida. Estatísticas no mundo inteiro
atestam esse fato. A propósito, gostaria de citar um
estudo realizado, em 1951, com 34.439 ingleses. Eles
responderam um questionário de mais de trezentas
perguntas sobre como viviam, que medicamentos
tomavam, se eram portadores de doenças hereditárias,
onde moravam, se eram fumantes ou não, se acendiam o
cigarro com fósforos ou com isqueiro, etc.
Como na Inglaterra, quando morre um médico, cópia do
atestado de óbito vai para o Conselho Britânico de
Pesquisas, foi possível verificar, depois de 40 anos
de acompanhamento, que os médicos ingleses fumantes
morreram mais do que os não-fumantes por 33
diferentes doenças. Outro dado obtido foi que 80%
dos médicos que nunca fumaram chegaram vivos aos 70
anos. Entre os fumantes chegaram aos 70 anos 70% dos
que fumavam 15 cigarros por dia; 65% dos que fumavam
um maço de cigarros e 50% dos que fumavam dois
maços. Recentemente, no British Medical Journal,
saiu o resultado dessa pesquisa depois de 50 anos de
acompanhamento e verificou-se uma diferença no
índice de mortalidade dos médicos ingleses que
começaram a fumar no começo do século comparados com
os que começaram a fumar depois dos anos de 1930. A
conclusão foi que hoje se morre três vezes mais por
causa do cigarro, porque se fuma muito mais do que
se fumava no começo do século.
O
impressionante é que 1/3 da mortalidade geral é
provocada pelo tabaco e ocorre entre os 34 e os 69
anos, idade em que o homem é mais necessário e
economicamente produtivo, e que nessa faixa de idade
morre um a cada dois que começaram a fumar na
adolescência.
Drauzio – O que acontecerá se esse padrão de consumo
não mudar?
José Rosemberg – Hoje, morrem por ano cinco milhões
de pessoas por causa do tabaco. Se o padrão de
consumo não se reverter, em 2030, morrerão dez
milhões por ano, dos quais sete milhões no mundo
pobre e três milhões no mundo rico.
Vale a pena discutir essa inversão. A epidemia está
se deslocando do mundo rico para o mundo pobre, para
a África, Ásia e América Latina, por algumas razões
que vou enumerar.
Como as pessoas do mundo rico começaram a fumar
antes, já existem campanhas e leis muito mais
severas contra o uso do tabaco. Como conseqüência,
as companhias tabaqueiras internacionais estão
dirigindo seus esforços para os países em
desenvolvimento. Por isso, enquanto o consumo cai
1,7% ao ano nos países ricos, aumenta 2,45% nos
pobres. Isso quer dizer que cem milhões de pessoas
começam a fumar por ano: oitenta milhões no mundo
pobre e vinte milhões no mundo rico.
Se
fumar fosse dar uma tragada e cair morto, ninguém
fumava. O cigarro leva algum tempo para minar o
organismo. Age na surdina. Daqui a dez ou vinte
anos, portanto, muito mais gente vai morrer no mundo
pobre por causa do tabaco.
Doença
pediátrica
Drauzio – Outro problema é que as pessoas estão
começando a fumar cada vez mais cedo.
José Rosemberg – Hoje se considera a epidemia
tabágica uma doença pediátrica, porque 99% dos
fumantes começam a fumar na adolescência, entre os
10, 12 e os 18 anos, quando os centros nervosos
ainda não estão totalmente desenvolvidos.
Excepcionalmente, um indivíduo começa a fumar aos
20, 25 anos.
A
nicotina chega ao cérebro de 7 a 12 segundos depois
da tragada. Lá existem vários centros nervosos que a
reconhecem e promovem uma chuva de hormônios
psicoativos que levam à dependência. O principal
deles é a dopamina. Como no adolescente esses
centros ainda não estão maduros, a defesa é muito
menor e ele se torna dependente mais depressa. Aos
19 anos, 99% dos fumantes são escravos do tabaco até
a morte.
Futuro
trágico
Drauzio – Existe uma projeção de como evoluirá a
epidemia do tabaco?
José Rosemberg – Existem no mundo de dois bilhões e
meio a três bilhões de pessoas entre zero e trinta
anos. Em 2030, elas terão de 35 a 69 anos. Se nada
for feito para reduzir o consumo de tabaco, ele será
responsável pela morte de 500 milhões de pessoas.
Por isso, as instituições médicas e de saúde pública
do mundo inteiro estão prevendo um futuro trágico
para a epidemia do tabaco.
A
pergunta é por que não se proíbe fumar e vender
tabaco. Porque é impossível, uma vez que existem no
mundo mais de um bilhão de indivíduos
nicotino-dependentes. Como fazer essa gente toda
parar de fumar?
Há
500 anos o tabaco vem sendo apresentado como
sinônimo de estilo de vida e se fuma muito, mas faz
só 50 anos que se sabe que ele mata. Na verdade, o
fumante é vítima dessa epidemia. Não podemos
estigmatizá-lo.
Convenção -
Quadro sobre o Tabagismo
Drauzio – O que o senhor acha que deve ser feito
para reverter esse quadro?
José Rosemberg – A saída é um programa nacional e
educacional que leve a mensagem e uma campanha
mundial contra o tabagismo. Na Organização Mundial
de Saúde, 192 países e 200 ONGS, entre elas a que
presido, assinaram um convênio que se chama
Convenção-Quadro sobre o Controle do Tabaco que
resultou no primeiro tratado de saúde pública
mundial de prevenção, o primeiro sobre tabagismo. Se
40 países não fizerem a ratificação desse documento,
ele não poderá ser transformado em lei internacional
para proteger a população do mundo contra os efeitos
nocivos do tabaco. Entre as medidas que defende
estão a proibição da propaganda de cigarro, do
patrocínio de eventos culturais e esportivos pela
indústria do fumo, de fumar nos lugares públicos e a
divulgação de imagens e frases de advertência nos
maços de cigarro.
Pode-se proibir fumar nos locais de trabalho ou
diversão, mas não se pode proibir que o indivíduo
fume em casa. Por isso, a saída é elaborar um
programa nacional de educação. Nenhuma lei é
aplicável se não tiver base educacional e nenhum
programa educacional funciona, se não contar com o
amparo da lei. Legislação e educação constituem um
binômio interdependente.
Nossa esperança é que até 2050 tenhamos conseguido
conscientizar a sociedade de que fumar é um ato
anti-social. Faz mal a quem fuma e a quem convive
com o fumante.
José Rosemberg, professor de Pneumologia e um dos
fundadores da Faculdade de Medicina da PUC (SP),
tem-se destacado no combate à tuberculose e ao
tabagismo. Seu livro “Tabagismo, sério problema de
saúde pública” foi premiado pela Academia Nacional
de Medicina, em 1980. |